Um pouquinho sobre minha trajetória nesses 37 ano de vida
Nasci há 37 anos, em Suzano, São
Paulo. No entanto, as lembranças mais marcantes da minha infância são do Sítio
Santa Rita, em Canhotinho, Pernambuco. Naquela época, sequer havia energia
elétrica. A iluminação era feita à luz de candeeiro, o acesso à escola
acontecia em um pequeno grupo escolar, com turmas multisseriadas, e a
sobrevivência dependia do trabalho de toda a família na roça ou na colheita da
castanha, durante a safra do caju. Era desse trabalho que, muitas vezes, saía o
dinheiro para comprar a roupa nova do ano. Minha mãe, mulher de coragem e
personalidade forte, decidiu que precisávamos mudar de vida. Fomos para União
dos Palmares. A cidade também oferecia poucas oportunidades, o emprego era
escasso e as dificuldades continuavam presentes. Até que, mais uma vez, minha
mãe tomou uma decisão que mudaria nosso destino: “Vamos para Maceió”. E fomos. Os
primeiros anos e a adolescência não foram fáceis, mas sobrevivemos às
dificuldades. Foi em Maceió que comecei, de fato, a ler, já perto dos dez anos
de idade. Depois disso, nunca mais parei. Sempre estudei em escolas públicas.
No ensino médio, trabalhava durante o dia e estudava à noite. Concluí o ensino
médio e ingressei na minha primeira faculdade graças ao ProUni, uma política
pública que transformou a minha vida. Primeiro, cursei uma graduação da qual
não gostei. Depois, tentei Direito, mas também não me encontrei. Em seguida,
fui para o curso de Sistemas Biomédicos, na Universidade Estadual de Alagoas, o
qual concluí. Ainda assim, percebi que meu verdadeiro sonho era outro: ser
professora. Contra tudo e contra todos, decidi recomeçar. Fui para a área de
Exatas, na qual sempre tive mais facilidade, e foi na Química que encontrei
minha vocação. Não foi um caminho fácil. Quase enlouqueci em alguns momentos,
reprovei em disciplinas, pensei em desistir, mas desistir nunca fez parte da
minha história. Em 2021, defendi meu Trabalho de Conclusão de Curso e me
tornei, efetivamente, professora de Química formada pela Universidade Federal
de Alagoas. Porém, antes mesmo de terminar a graduação, já havia ingressado na
rede privada de ensino em Maceió. Ali aprendi que ensinar é uma das profissões
mais bonitas que existem, mas também uma das mais desafiadoras, marcada pela
pouca valorização e por enormes cobranças. Foi então que decidi que seria
professora concursada. Começou uma nova batalha. Em 2021, fui reprovada no
concurso de Maceió. Em 2022, vieram as aprovações: Bahia e Pernambuco. A Bahia
me chamou primeiro. Arrumei um tapete, dois travesseiros, um cobertor e fui
embora, sem conhecer ninguém, mas levando comigo a coragem que sempre me
acompanhou. Fui para a Chapada Diamantina, uma terra de pessoas acolhedoras,
humildes e batalhadoras. Vivi desafios, cresci como profissional e como ser
humano. De lá, levo amizades que guardarei para o resto da vida e lembranças
que jamais esquecerei. No final de 2024, a vida mudou mais uma vez. Pernambuco
me convocou, e aqui estou, trabalhando na cidade onde nasceu Luiz Inácio Lula
da Silva, o primeiro presidente da República de origem verdadeiramente pobre.
Independentemente de qualquer posição política, sua trajetória é um exemplo de
que a origem não precisa determinar o destino. Ao olhar para trás, percebo que,
em apenas 37 anos, vivi transformações que parecem caber em um século inteiro.
Vi a energia elétrica chegar aos sítios do interior. Vi a televisão perder
espaço para a internet. Vi crianças deixarem de brincar nas ruas e de bater de
porta em porta, chamando os amigos para brincar. Vi a ciência avançar de forma
extraordinária, mas também testemunhei um tempo em que muitas pessoas passaram
a desacreditar justamente nela, preferindo opiniões sem qualquer fundamento às
evidências produzidas por anos de pesquisa. Talvez essa seja a maior lição da
minha história: o mundo mudou numa velocidade impressionante, mas continuo
acreditando que a educação é a ferramenta mais poderosa para transformar vidas.
Ela transformou a minha. Cada dificuldade enfrentada, cada recomeço, cada
mudança de cidade e cada obstáculo superado me trouxeram até aqui. Se hoje sou
professora, é porque um dia alguém acreditou que filhos de trabalhadores rurais
também mereciam sonhar. E, enquanto eu estiver em uma sala de aula, farei o
possível para que meus alunos também entendam que os sonhos não têm CEP, não
têm classe social e não têm prazo de validade para acontecer.
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